Articles tagged with: cultura

“O homem recebe do meio, em primeiro lugar, a definição do bom e do mau, do confortável e do desconfortável. Deste modo os chineses preferem os ovos podres e os oceanenses o peixe em decomposição. Para dormir, os pigmeus procuram a incómoda forquilha de madeira e os japoneses deitam a cabeça em duro cepo. O homem recebe do seu meio cultural um modo de ver e de pensar. No Japão considera-se delicado julgar os homens mais velhos do que parecem e, mesmo durante os testes e de boa-fé, os indivíduos continuam a cometer erros por excesso (. . .)
O homem retira também do meio as atitudes afectivas típicas. Entre os maoris, onde se chora à vontade, as lágrimas correm só no regresso do viajante e não à sua partida. Nos esquimós, que praticam a hospitalidade conjugal, o ciúme desapareceu, tal como na Samoa; (…) a morte não parece cruel, os velhos aceitam-na como um benefício e todos se alegram por eles. Nas ilhas Alor, a mentira lúdica considera-se normal; as falsas promessas às crianças constituem um dos divertimentos dos adultos. O mesmo espírito encontra-se na ilha Normanby, onde a mãe, por brincadeira, tira o seio ao filho que está a mamar. (…) Entre os esquimós o casamento faz-se por compra. Nos urabima da Austrália um homem pode ter esposas secundárias que são as esposas principais de outro homem. No Ceilão reina a poliandria fraternal: o irmão mais velho casa-se e os mais novos mantêm relações com a cunhada. A proibição do incesto encontra-se em todas as sociedades, mas não há duas que o definam da mesma maneira e lhe fixem de modo idêntico as determinações exclusivas. O amor e os cuidados da mãe pelos filhos desaparecem nas ilhas do estreito de Torres e nas ilhas Andaman, em que o filho ou a filha são oferecidos de boa vontade aos hóspedes da família como presentes, ou aos vizinhos, em sinal de amizade. A sensibilidade a que chamamos masculina pode ser, de resto, uma característica feminina, como nos tchambulis, por exemplo; em que na família é a mulher quem domina e assume e direcção. (…)

Os diferentes povos criaram e desenvolveram um estilo de vida que cada indivíduo aceita – não sem reagir, decerto – como um protótipo.”

Lucien Malson, As crianças selvagens

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Filme: Nell

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=n1Zay9SOYxA]

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Texto 027 – A evolução do conceito de cultura

 

«A palavra “cultura” aparece no fim do séc. XI. Designa, nomeadamente, um pedaço de terra trabalhada para produzir vegetais e torna-se sinónimo de agricultura ( … ). Em meados do séc. XVI, o sentido figurado de cultura do espírito começa a ser empregado pelos humanistas do Renascimento. É no séc. XVIII que a cultura em ciências, letras e artes se torna um símbolo da filosofia das Luzes e que Hobbes designa por “cultura” o trabalho de educação do espírito em particular durante a infância. O homem cultivado tem gosto e opinião, requinte e boas maneiras. No séc. XIX, a palavra “cultura” tem por sinónimo “civilização”. Mas, ao passo que E. F. Tylor (1871) define a cultura através do desenvolvimento mental e organizacional das sociedades, como “esse todo complexo que inclui os conhecimentos, as crenças religiosas, a arte, a moral, os costumes e todas as outras capacidades e hábitos que o homem adquire enquanto membro da socie¬dade”, a antropologia cultural americana, uns sessenta anos mais tarde, insiste no desenvolvimento material e técnico e na transmissão do património social. Segundo os culturalistas, a cultura, enquanto modo de vida de um povo, é uma aquisição humana, relativamente estável mas sujeita a mudanças contínuas que determina o curso das nossas vidas sem se impor ao nosso pensamento consciente.»

Peter Worsley, Dicionário de Sociologia, Publicações Dom Quixote, 1990 (adaptado)

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Texto 002 – A diversidade cultural

DIVERSIDADE CULTURAL

A diversidade das culturas [e comunidades] humanas é extraordinária. As formas aceites de compor­tamento variam grandemente de cultura para cultura, contrastando frequentemente de um modo radical com o que as pessoas das sociedades ocidentais consideram «normal». Por exemplo, no Ocidente moderno a matança deliberada de recém-nascidos e bebés é conside­rada como um dos crimes mais horrendos. No entanto, na cultura chinesa tradicional, as crianças de sexo feminino eram frequentemente estranguladas à nascença, uma vez que eram vistas como um encargo para a família e não como um património.

No Ocidente, comemos ostras, mas não comemos gatinhos e cachorros, e tanto uns como os outros são considerados, em algumas partes do mundo, iguarias gastronómicas. Os Judeus não comem carne de porco, enquanto os Hindus, embora comam porco, evitam a carne de vaca. Os Ocidentais consideram o acto de beijar uma parte natural do comporta­mento sexual, mas em muitas outras culturas esse acto é ou desconhecido ou considerado de mau-gosto. Todos estes diferentes tipos de comportamento são aspectos das grandes diferen­ças culturais que distinguem as sociedades umas das outras.

As sociedades de pequena dimensão (como as sociedades de «caçadores-recolecto­res») tendem a ser culturalmente uniformes, mas as sociedades industrializadas, pelo contrário, são culturalmente diversificadas, envolvendo numerosas subculturas diferentes. Nas cidades modernas, por exemplo, muitas comunidades subcultu­rais vivem lado a lado — negros oriundos das índias Ocidentais, paquistaneses, indianos, italianos, gregos e chineses habitam, hoje em dia, algumas zonas centrais de Londres. Todas elas têm o seu próprio território e modos de vida.

Anthony Giddens, “Sociologia”, Fundação Calouste Gulbenkian

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