Em sentido forte, socializar é transformar um indivíduo de um ser associal num ser social inculcando-lhe modos de pensar, de sentir, de agir. Uma das consequências da socialização é tornar estáveis as disposições do comportamento assim adquiridas. Esta interiorização das normas e valores tem igualmente por função tornar suas as regras sociais, que são por definição exteriores ao indivíduo, e aumentar a solidariedade entre os membros do grupo. Enquanto instrumento da regulação* social, permite a economia de sanções externas. O grupo não tem necessidade, neste sentido, nem de lembrar indefinidamente ao indivíduo a existência dessas regras nem de exercer sobre ele uma coacção para que elas sejam observadas: violá-las gera um sentimento de culpabilidade. Os estudos sobre a socialização tentam pôr em evidência os processos pelos quais um indivíduo interioriza conteúdos e estruturas e analisar os efeitos desta interiorização sobre o comportamento. Um dos objectivos destas pesquisas é fornecer uma solução ao problema da permanência, através das gerações, das culturas e subculturas específicas de certos grupos, dos comportamentos de indivíduos que foram submetidos aos mesmos tipos de aprendizagem, sejam eles linguísticos, cognitivos, políticos ou morais.
Estes estudos mostraram, nomeadamente, que existe uma forte semelhança de comportamentos políticos entre os filhos e seus pais, que certos valores, como o do sentido da solidariedade colectiva, são mais privilegiados na classe operária que o sucesso individual, que caracterizaria as classes médias. Pretendeu-se ver no sistema de valores interiorizado próprio da classe a que o indivíduo pertence a determinante do destino deste. Com efeito, esta definição da socialização supõe o primado da sociedade sobre o indivíduo, o exercício de uma coacção por parte de uma autoridade considerada como legítima e um objectivo definido ao nível social. Assenta, além disso, numa teoria rudimentar da aprendizagem como condicionamento. O indivíduo é, de facto, pensado como um ser passivo cujo comportamento se resume a uma reprodução de esquemas adquiridos. A esta visão determinista, pode opor-se uma concepção mais flexível que toma em consideração a relativa autonomia do indivíduo, a capacidade deste para adaptar as disposições adquiridas às situações vividas, e mesmo para modificar quando necessário as normas e valores interiorizados em função de certos problemas que é chamado a resolver.
Blog em http://blogmilfolhas.blogspot.com
Share

Leave a reply

required

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.