O desenvolvimento incontrolado e cego da ciência

“O nosso devir é mais do que nunca animado pela dupla dinâmica do desenvolvimento das ciências e do desenvolvimento das técnicas que se nutrem mutuamente; esta dinâmica propulsiona no globo o desenvolvimento in­dustrial e o desenvolvimento civilizacional que a estimulam em retorno. Assim, a tecnociência conduz o mundo des­de há um século. São os seus desenvolvimentos e as suas expansões que operam os desenvolvimentos e as expansões das comunicações, das interdependências, das solidariedades, das reorganizações, das homogeneizações que desenvolvem a era planetária. Mas são também estes desenvolvimen­tos e estas expansões que provocam, como contra-efeitos retroativos, as balcanizações, as heterogeneizações, as desorganizações, as crises de hoje.

A fé na missão providencial da tecnociência alimentou a certeza do progresso, as grandiosas esperanças do desenvolvimento futuro. A tecnociência não é somente a lo­comotiva da era planetária. Ela invadiu todos os tecidos das sociedades desenvolvidas, implantando de modo organizador a lógica da máquina artificial, mesmo na vida quotidiana, recalcando a competência de­mocrática dos cidadãos em proveito dos peritos e especialistas. (…)

A extensão da lógica da máquina artificial, em todos os domínios da vida humana, produz o pensamento mecanicista parcelar que ganha forma tecnocrática e iconográfica. Um tal pensamento não percebe senão a causalidade mecânica, ao passo que tudo obedece cada vez mais à causalidade complexa. Ela reduz o real a tudo o que é quantificável. A hiperespecialização e a redução ao quantificável produzem a cegueira, não so­mente a respeito da existência, do concreto, do individual, mas também a respeito do contexto, do global, do funda­mental. Elas acarretam, em todos os sistemas tecnoburocráticos, uma autonomização, uma diluição e, finalmente, uma perda de responsabilidade. Elas favorecem, ao mes­mo tempo, a rigidez da ação e o laxismo da indiferença. (…)

A ciência não é somente elucidante, ela é também cega a respeito do seu próprio devir e, tal como a árvore bíblica do conhecimento, ela traz nos seus frutos, ao mesmo tempo, o bem e o mal. A técnica traz consigo, ao mesmo tempo que a civilização, uma nova barbárie, anónima e manipuladora. A palavra razão significa não apenas a racionalidade crítica, mas também o delírio lógico da racionalização, cego para os seres concretos (…). O que considerávamos como avanços da civilização são, ao mesmo tempo, avanços da barbárie. (…)

A marcha da tríade que tomou a seu cargo a aventura humana, ciência-técnica-indústria, é incontrolável. O crescimento é incontrolável, o seu progresso conduz ao abismo.

À visão eufórica de Bacon, Descartes, Marx em que o homem senhor da técnica se tornava senhor da natureza, sucede a visão de Heisenberg e Gehlen, em que a humanidade se torna instrumento de um desenvolvimento metabiológico animado pela técnica.

Edgar Morin, Terre-Patrie

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